domingo, 28 de outubro de 2012

Uma princesa quase indelicada


Nesta postagem optamos por abordar o conto “A princesinha boca-suja”, de autoria de Cláudio Fragata, por vários aspectos que o torna inovador e que permite que o encanto e a magia não estejam voltados apenas para o belo, o delicado e o perfeito, mas também aos elementos que dão ao conto um tom humorístico, que rompe com os paradigmas dos contos de fadas tradicionais.

Esses aspectos rompem com a estrutura tradicional dos contos proposta por V. Propp com relação à situação introdutória, pois, não apresenta o surgimento de um problema que abale a felicidade inicial, ou ainda, um herói que resolva tais problemas enfrentando obstáculos ou provações. O único ponto que se mantém “fiel” é o final ditoso “Foram felizes para sempre”, embora, o casal brigue de vez em quando.

É uma história que se inicia pela célebre expressão “Era uma vez...”, o desejo de um rei e de uma rainha de ter um filho ou uma filha para herdar o trono. Desejo esse que perdurou durante muito tempo. Certo dia nasceu uma bela menina, a qual recebeu o nome de Formosura devido sua imensa beleza. Para comemorar seu nascimento o rei e a rainha organizaram uma grande festa, em que os convidados eram as fadas, os nobres etc..

Neste momento o narrador que se mantinha, de certa forma, neutro, apenas como observador, manifesta-se através de uma intromissão na qual dialoga com o leitor. Ele diz:
:
Até aqui, a história de Formosura é meio parecida com a da Bela Adormecida, você notou? Isso não tem nada de mais. Todos os contos de fadas são um pouco parecidos uns com os outros. Mas as duas histórias se parecem só até este ponto. Daqui em diante, as coisas vão ficando bem diferentes.(FRAGATA, 2007)
:
É também a partir deste ponto que o narrador relata elementos que exemplificam o quanto o conto é uma história inovadora:
:
Os pais da Bela Adormecida se esqueceram de convidar a fada má, e deu no que deu. Ela apareceu sem ser convidada e estragou a festa. Já os pais de Formosura não quiseram cair na mesma cilada. O nome da fada má estava em primeiríssimo lugar na lista de convidados, que o rei e a rainha não eram bobos nem nada. A fada má trouxe até um vaso de cacto para Formosura. Era um presente bem esquisito para um bebê, mas trouxe. Ninguém jamais pôde dizer que ela veio de mãos abanando. (FRAGATA, 2007)
:
Em um conto de fadas tradicional, não apareceria esse tratamento pacífico entre os personagens caracterizados como bons e a bruxa má, já que a bruxa deveria ser afastada por manifestar sentimentos de ódio, de raiva e/ou inveja das princesas belas e encantadas, e, dessa forma, a princesa doce e amável poderia de alguma forma ser atingida pela maldade da bruxa.

Outro aspecto que acreditamos ser o mais relevante do conto que o caracteriza como inovador está presente no fato de a princesinha pronunciar palavras que não poderiam ser ditas por uma pessoa que ocupa um lugar de destaque na sociedade.

Desse modo, percebemos que a protagonista se revela uma jovem muito moderna, que não se atém às formalidades que todos julgam ser as corretas, até porque, todos falam, mesmo que seja no seu íntimo, coisas como “xixi”, “meleca”, “bobão”, “titica” entre outras.  

A partir, dessa marcante característica da princesinha (atitude nas palavras) podemos ver a apresentação dae sua identidade, assim diferenciando e permitindo a sua existência (AXER, 2004).

Essa história, então, forma um estereótipo em que o sujeito é rotulado por seu jeito diferente de ser e agir, de modo que as suas demais características ficam apagadas, desvalorizadas. Mas uma literatura que aborda uma nova perspectiva em sua temática amplia e renova a percepção do leitor (cf. Zilberman apud Axer, 2004).

No fim da história, a princesinha boca-suja encontra um príncipe que a aceita do jeito que é e assim eles são felizes para sempre, mesmo com brigas que aconteciam de vez em quando.

Por essas características presentes no texto de Cláudio Fragata, percebemos uma adaptação do gênero às novas demandas, afinal, por ser um livro datado de 2007, os seus leitores, principalmente as crianças, querem um assunto mais próximo de sua realidade.

Através desse conto, é possível fazer uma reflexão no processo de ensino-aprendizagem que aborde a questão das diferenças entre as pessoas, desfazendo, assim, os preconceitos, uma vez que, a principal mensagem da história está centrada em mostrar e valorizar as características individuais, rompendo com valores pré-determinados pela sociedade.   


Referências:

AXER, B. Questionando as marcas identitárias nas histórias infantis. Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, 2004.
FRAGATA, C. A princesinha boca-suja. Ed. Scipione: 2007
PROPP, Vladimir I. Morfologia do Conto Maravilhoso. Editora: CopyMarket.com, 2001.

GT5 - Contos de fada na atualidade

O que os olhos de Ruth Rocha veem


 
Ruth Rocha é uma autora consagrada dentre os escritores de literatura infantil pelo caráter inovador de sua obra, entre outras características. Rocha concebe a criança como um ser ativo durante a leitura, considerando-a, portanto, capaz de julgar e optar. Em muitos momentos ela incumbe a criança a completar, recriar, construir a história, por meio da própria imaginação – como veremos melhor mais adiante. Assim como em suas histórias coloca os personagens diante de problemas que podem solucionar através das próprias ideias, espera que a criança se depare com problemas dos quais ela terá que lidar por conta própria. Além disso, em suas histórias a fantasia é utilizada de maneira alegórica, para aproximar a criança-leitora de sua realidade, fazendo-a refletir criticamente. Uma análise do texto abaixo,“O que os olhos não veem”, nos permitirá identificar aspectos chave de toda a obra de Ruth Rocha, e entender por que suas obras são consideradas tão adequadas ao público infantil, dado que seus livros já foram traduzidos para mais de 25 idiomas.

O que os olhos não veem

Havia uma vez um rei
num reino muito distante,
que vivia em seu palácio
com toda a corte reinante.
Reinar pra ele era fácil,
ele gostava bastante.


Mas um dia, coisa estranha!
Como foi que aconteceu?
Com tristeza do seu povo
nosso rei adoeceu.
De uma doença esquisita,
toda gente, muito aflita,
de repente percebeu...

Pessoas grandes e fortes
o rei enxergava bem.
Mas se fossem pequeninas,
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém.

Por isso, seus funcionários
tinham de ser escolhidos
entre os grandes e falantes,
sempre muito bem nutridos.
Que tivessem muita força,
e que fossem bem nascidos.
E assim, quem fosse pequeno,
da voz fraca, mal vestido,
não conseguia ser visto.
E nunca, nunca era ouvido.

O rei não fazia nada
contra tal situação;
pois nem mesmo acreditava
nessa modificação.
E se não via os pequenos

e sua voz não escutava,
por mais que eles reclamassem
o rei nem mesmo notava.

E o pior é que a doença
num instante se espalhou.
Quem vivia junto ao rei
logo a doença pegou.
E os ministros e os soldados,
funcionários e agregados,
toda essa gente cegou.

De uma cegueira terrível,
que até parecia incrível
de um vivente acreditar,
que os mesmos olhos que viam
pessoas grandes e fortes,
as pessoas pequeninas
não podiam enxergar.

E se, no meio do povo,
nascia algum grandalhão,
era logo convidado
para ser o assistente
de algum grande figurão.
Ou senão, pra ter patente
de tenente ou capitão.
E logo que ele chegava,
no palácio se instalava;

e a doença, bem depressa,
no tal grandalhão pegava.

Todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
que ele tão bem enxergava,
cuja voz tão bem ouvia,
como num encantamento,
ele agora não tomava
o menor conhecimento...

Seria até engraçado
se não fosse muito triste;
como tanta coisa estranha
que por esse mundo existe.

E o povo foi desprezado,
pouco a pouco, lentamente.
Enquanto que próprio rei
vivia muito contente;
pois o que os olhos não vêem,
nosso coração não sente.

E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido;
que trabalhava bastante,
mas que nunca era atendido;
que por mais que se esforçasse
não era reconhecido.

Cada pessoa do povo
foi chegando à convicção,
que eles mesmos é que tinham
que encontrar a solução
pra terminar a tragédia.
Pois quem monta na garupa
não pega nunca na rédea!

Eles então se juntaram,
Discutiram, pelejaram,
E chegaram à conclusão
Que, se a voz de um era fraca,
Juntando as vozes de todos
Mais parecia um trovão.

E se todos, tão pequenos,
Fizessem pernas de pau,
Então ficariam grandes,
E no palácio real
Seriam logo avistados,
Ouviriam os seus brados,
Seria como um sinal.
E todos juntos, unidos,
fazendo muito alarido
seguiram pra capital.
Agora, todos bem altos
nas suas pernas de pau.
Enquanto isso, nosso rei
continuava contente.
Pois o que os olhos não vêem
nosso coração não sente...

Mas de repente, que coisa!
Que ruído tão possante!
Uma voz tão alta assim
só pode ser um gigante!
- Vamos olhar na muralha.
- Ai, São Sinfrônio, me valha
neste momento terrível!
Que coisa tão grande é esta
que parece uma floresta?
Mas que multidão incrível!

E os barões e os cavaleiros,
ministros e camareiros,
damas, valetes e o rei
tremiam como geléia,

daquela grande assembléia,
como eu nunca imaginei!

E os grandões, antes tão fortes,
que pareciam suportes
da própria casa real;
agora tinham xiliques
e cheios de tremeliques
fugiam da capital.

O povo estava espantado
pois nunca tinha pensado
em causar tal confusão,
só queriam ser ouvidos,
ser vistos e recebidos
sem maior complicação.

E agora os nobres fugiam,
apavorados corriam
de medo daquela gente.
E o rei corria na frente,
dizendo que desistia
de seus poderes reais.
Se governar era aquilo

ele não queria mais!

Eu vou parar por aqui
a história que estou contando.
O que se seguiu depois
cada um vá inventando.
Se apareceu novo rei
ou se o povo está mandando,
na verdade não faz mal.
Que todos naquele reino
guardam muito bem guardadas
as suas pernas de pau.

Pois temem que seu governo
possa cegar de repente.
E eles sabem muito bem
que quando os olhos não vêem
nosso coração não sente.



                Primeiramente, é interessante refletir sobre o título do texto. O que os olhos não veem sugere a alienação e o descaso por parte do contente rei em relação ao povo esquecido, além de remeter logo de início ao ditado popular “o que os olhos não veem o coração não sente”, o que mostra a valorização dos provérbios populares e da cultura do povo. Isso éreforçado mais adiante quando a autora usa o ditado ” [...] quem monta na garupa não pega nunca na rédea!”. Por meio dessas citações, a autora propicia à criança um contato com dados da tradição oral muitas vezes distantes do seu mundo. Já no âmbito estrutural vale notar que predominam versos heptassílabos, ou em redondilha maior, o que denuncia uma linguagem leve, lúdica e por vezes irônica, muito pertinente para o gênero poesia infantil.
 
         Uma das características mais importantes de toda a obra de Ruth Rocha é a preocupação com a formação crítica dos leitores, como já mencionado anteriormente. Considerando-se que muitas obras da autora foram escritas no início da década de 70 – período inaugurado três meses após o AI5, caracterizado por forte repressão, autoritarismo e um regime militar ditatorial –e sabendo-se que um tema recorrente na maior parte dos livros de Rocha é o questionamento do poder dominante, é possível afirmar que o poema sobre o qual nos detemos possui evidente questionamento relacionado à estrutura social e política vigente. A figura do rei é bastante alegórica devido ao fato de que o rei é o mais legítimo representante do poder, e também, desta maneira, fica evidente a tensão existente entre dominante (rei e nobreza) e dominado (povo).  Além disso, o rei é uma figura paterna e masculina, e em uma sociedade patriarcal e predominantemente machista, deixar de apresentá-lo como a representação suprema da consciência, da virtude, do juízo, e do autodomínio é uma clara contestação ao poder dominante. O povo, por sua vez, é representado como pequeno e fraco, carente de uma administração que atendesse às suas necessidades, mas esta administração não o enxerga nem o atende. O problema então, não é como nas antigas histórias de contos de fadas, em que um obstáculo que prejudica o povo é superado pelo sábio rei; o problema é o rei, que é falho, doente, cego, preocupado apenas com aqueles que lhe servem. No poema em questão, o povo é ativo, e apenas unido pode solucionar o problema. Suas vozes, que isoladas não podem ser ouvidas pelo rei, juntas fazem com que a classe dominante toda tema o poder que eles têm.
 
         Diante disso alguém poderia dizer: “mas esta história é inverossímil e alienante, pois não temos reis em nossa estrutura governamental, e usar pernas de pau não poderia solucionar nenhum tipo de problema real”. Porém, o rei é uma alegoria para o poder dominante, e o uso das pernas de pau  (talvez uma possível alegoria das armas em uma revolução) é uma maneira de mostrar que o povo toma decisões coerentes com os problemas com que se depara – já que em “O que os olhos não veem” os pequenos não são vistos. E o mais importante: a narrativa aponta para o fato de "a união fazer a força", conforme o conhecido ditado popular, pois  os pequeninos (ou oprimidos) quando unidos têm voz mais impactante que todos os grandalhões juntos. A fantasia torna-se então instrumento iluminador da realidade: ambas não estão separadas. A criança é totalmente capaz de discutir os problemas reais, e por ser criança, entenderá melhor a realidade por meio da fantasia, por sua vez encarada como uma maneira de apresentar o real. Logo, se o povo pequeno encontra saída para as suas adversidades, a criança se sentirá estimulada a descobrir como encontrar as próprias soluções.
 
         O final, por fim, transmite a ideia (a oral) de que o povo deve unir-se, pois somente assim ele é capaz de ter voz e poder, o que lhe fará parecer  “um trovão” aos olhos dos poderosos.
 
 
 

Referências:
 

GT1: Poesia Infantil

Quem tem tudo também tem com que sonhar! ("O príncipe sem sonhos", de Marcio Vassallo)


Thiago era um príncipe que tinha tudo. Ele ganhava de seus pais, além de amor, todas as coisas que um menino pode desejar: tapetes voadores com piloto automático, dragões de estimação, fábrica de chicletes mágicos, súditos que o serviam sem raiva, herança e uma criação de unicórnios. Tantos presentes não o deixavam sonhar, pois o principezinho já tinha tudo que a imaginação pode alcançar e, por isso ele não tinha tempo de desejar coisa alguma.

Ele era o único herdeiro do reino e, mesmo com tudo o que possuía, era um príncipe muito infeliz. O rei e a rainha não sabiam o motivo de tanta tristeza, já que o menino era um príncipe e tinha todas as coisas que poderiam fazê-lo feliz.  

Eles não entendiam que o garoto queria ter um sonho. Então, o príncipe foi pedir um conselho a seu avô, um bruxo aposentado. O velho explicou a Thiago que os sonhos são como as estrelas; mesmo que as nuvens as escondam, elas estão lá. Os sonhos estão adormecidos, dentro das pessoas, esperando para serem despertados.


A atualidade do conto

O conto é atual, pois traz como tema a busca pelos nossos sonhos, mesmo quando achamos que a felicidade está na posse de bens materiais, que não suprem o vazio existencial dos homens. A história também se refere à pouca importância com relação ao “ser”. O autor discute em sua obra a relação entre “ser” e “ter”.
 
Os reis não se preocupam com a formação da personalidade, com a maneira como o príncipe agirá, pensará e sentirá. Eles acreditam que, ao oferecer bens materiais, fazem o príncipe feliz. Porém, isso não acontece. 

O pequeno se sente perdido, pois os presentes não são o suficiente para sua felicidade. Então, como os reis pensam apenas no “ter”, Thiago busca auxílio para sair da alienação proporcionada pelos pais e, para isso, procura o avô, que o ajudará a “ser” e principalmente a “pensar” alguém, conjetura muito enfatizada por Descartes na célebre frase: “Penso, logo existo”.


O avô de Thiago

Ele é fundamental para a história, pois, como idoso, representa a sabedoria. Ao comparar os sonhos com as estrelas, o avô incentiva não só o príncipe, mas também todas as pessoas, principalmente as crianças que leem o conto, a sonhar. Ele mostra que não é o suficiente possuir coisas materiais. O sábio velho mostra que todos precisam ter um objetivo na vida; almejar uma realização pessoal.

O leitor apreende que todos têm o direito de sonhar e fazer escolhas. O avô ensina que ninguém deve se acomodar com o que já tem. Isso não vale especificamente para bens materiais, mas vale principalmente para os valores humanos, porque sempre há lugar para novas ideias, novas conquistas e possibilidades, ainda que muitas delas não pareçam nítidas, pois como diz o avô de Thiago (retomando um provérbio árabe): “Não diga que o céu está sem estrelas só porque às vezes você não as enxerga”.


Afinal, “os melhores sonhos são aqueles que continuam de outro jeito, quando a gente desperta”. (VASSALO, 2001)

Curiosidades:  

Referências

Instituto Pró-Seguir - O Príncipe Sem Sonhos - Márcio Vassalo

VASSALO, M. O Príncipe Sem Sonhos. Brink book: SP, 2001.



GT 5: Contos de Fadas na Atualidade

Importância das ilustrações nos livros infantis para o desenvolvimento cognitivo e estético perceptivo da criança.



Alice começava a sentir-se muito cansada por estar sentada no banco, ao lado da irmã, e por não ter nada que fazer. Mais do que uma vez espreitara para o livro que a irmã estava a ler, mas este não tinha gravuras nem conversas... “E para que serve um livro que não tem gravuras nem conversas?” pensou Alice. (CARROLL, 2000, p. 7)

        A ilustração passou a ganhar maior importância recentemente devido às transformações midiáticas que têm colocado a imagem em situação de paridade ao texto.   Essas mudanças ocorreram devido às novas configurações na comunicação visual, por sua vez decorrentes dos meios informáticos existentes, das possibilidades de criação e da transformação de imagens, que são cada vez mais complexas e elaboradas.
 
        No que diz respeito ao âmbito literário, em especial aquele do universo infantojuvenil, as ilustrações passaram do patamar de importância ao da quase necessidade. Podem apoiar (afirmar e condizer) o texto verbal (função utilitária), mas possuem função predominantemente estética. Desta forma, o ilustrador possui o valioso papel de tornar o texto “mais agradável” do ponto de vista estético, “entrando” na mente de um leitor-receptor potencial. Este ato problematiza a tarefa do ilustrador, pois ele precisa encontrar uma linguagem gráfica compatível com aquela desse receptor potencial. Tal fazer é bastante complicado, já que as crianças, por exemplo, utilizam muito mais da fantasia do que os adultos e não veem suas criações artísticas da mesma maneira que os adultos as veem.               
 
        Por tal motivo, observa-se a importância do ilustrador em conhecer os processos mentais infantis para que ele possa, além de tornar a ilustração atraente a seus receptores, também agir no desenvolvimento cognitivo e estético perceptivo de seus receptores.
 
Tendo isto em vista, partimos do trabalho realizado por Brisa Caroline Gonçalves Nunes, em que a estudiosa explora as “ilustrações de livros infantis e seus atravessamentos pedagógicos, levantando os aspectos com que este tipo de imagem pode favorecer o desenvolvimento cognitivo e estético perceptivo das crianças” (p. 1). Além disso, valeu-se do estudo proposto por Marta Morais da Costa a respeito “do poder de atração que as imagens gravadas na página de um livro representa para os leitores”  (p.24) do universo infantojuvenil.
 
Como já discutido em postagens anteriores, o livro literário ilustrado é a união de duas linguagens, uma verbal e outra visual, que tem função representativa, informativa e estética. Este diálogo que ocorre entre esses dois sistemas de signos enriquece o jogo de significações da leitura feita pelo receptor. No entanto, como afirma Morais da Costa:
 
Há, porém, na relação texto-imagem limites permanentes: nem a palavra consegue substituir a imagem, por mais que tente descrevê-la, nem a imagem é capaz de reproduzir a sonoridade da palavra e a multiplicidade de sentidos que ela é capaz de evocar. Mas, respeitando as respectivas idiossincrasias, texto e imagem podem somar-se e ampliar os sentidos das mensagens. (p. 25)
 
Sabe-se assim que a imagem não pode substituir a palavra e vice-versa, visto que ambos os signos, em uma obra literária ilustrada, assumem papel igual na transmissão de uma herança cultural e artística. Esta comunhão da imagem e do texto, além desse papel, insere o leitor no mundo simbólico e cultural, e é assegurada pela escola, família e mercado editorial (MORAIS DA COSTA, p. 25). Mas é também esta influência desses três grupos (família, escola e mercado editorial) que tem intensificado a associação de palavra e imagem como sendo algo do universo infantil.  
 
Tendo em vista esta realidade, a leitura infantil tem sido uma combinação do reconhecimento e aprendizagem desses dois sistemas de signos. O processo de aprendizagem, por sua vez, é discutido por Nunes em sua abordagem das teorias vigotsquianas em que a aprendizagem é vista como,
 
um processo interativo entre o indivíduo, seus semelhantes, e o meio natural e sócio-cultural em que está inserido. Entre os postulados básicos, norteadores das pesquisas do autor, Oliveira afirma: “A relação homem/mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos.” (OLIVEIRA, 1993, p.23). Tendo o significado de mediação como “(...) o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento.” (Idem, 1993, p. 26). (NUNES, p.3)
 
        Segundo Vygotsky (1994), existem dois tipos de mediadores que atuam no processo de aprendizagem infantil: os signos e os instrumentos. Os primeiros concernem à atuação no campo psicológico, direcionam-se ao pensamento e são orientados “para dentro do indivíduo”; os segundos, por sua vez, se relacionam a ideia de trabalho e mediam a relação entre o homem e o mundo. O signo ajudará o indivíduo nas tarefas que exijam memória, enquanto que o instrumento o auxiliará no cumprimento dessas tarefas, depois de ter acessado a memória.
 
No que diz respeito aos livros infantis, pode-se dizer que estes são os instrumentos e nele se encontram presente os signos. A manifestação desses signos, como aponta Nunes, ocorre de duas maneiras: uma através das ilustrações, e outra, através da linguagem verbal. A partir daí e da ativação da imaginação, a criança, em sua leitura do livro ilustrado, fará uma mobilização de sentidos para que a narração e o diálogo entre os dois tipos de signos sejam compreendidos.
 
Assim, uma criança em processo de alfabetização, ao ler a palavra “bola” e identificá-la em uma ilustração, não apenas associa os significados entre uma linguagem e outra (verbal e visual) reforçando o alfabetismo, como também está compondo um repertório visual, um conjunto de signos imagéticos que utilizará para executar a função mediadora, conformizando de fato um processo de aprendizagem. É neste sentido que se percebe a relevância do papel das ilustrações em livros. (NUNES, p.4)
 
A ativação dos mecanismos da imaginação para a criação de novos sentidos  a partir do diálogo com as ilustrações e o texto verbal possibilita à criança desenvolver sua percepção estética. Esta percepção, como afirma Nunes, “tem uma importância singular na infância, auxiliando no desenvolvimento de processos cognitivos básicos, necessários para uma melhor qualidade da vida adulta” (p. 7).
 
O adulto, por sua vez, não terá na literatura dedicada a ele a mesma ênfase dada às imagens, visto que se pressupõe que o processo de aprendizagem da língua já foi adquirido.
 
O adulto já apresenta os signos internalizados, ele ainda executa a função mediadora, porém não necessita do objeto real ou, no exemplo da leitura de um livro, não depende de imagens reais para compor seu entendimento, pois já realiza o pensamento através de imagens ou signos internos, como representações mentais. (NUNES, p.4)
 
        Isso não quer dizer que as ilustrações presente em livros são indiferentes aos adultos. Como Morais da Costa nos lembra,
 
Na perspectiva infantil, um livro sem figuras não tem serventia. Já para os adultos, um livro com figuras permite redescobrir os sentidos da obra. Seja na produção para crianças, seja em livros para adultos, não há como negar que a união entre ilustração e texto tem produzido obras de rara beleza e de múltiplos sentidos. (p. 24)
 
        Como nos lembra a Alice de Carroll, as ilustrações conferem um importante prazer na leitura literária e não devem ficar esquecidas, sejam elas para as crianças no processo de aprendizado e formação estético perceptiva, seja nas descobertas do adulto ao ler uma obra literária.
       


Referências Bibliográficas

CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Publicações Dom Quixote: 2000.
 
MORAIS DA COSTA, M. Considerações Iniciais a respeito de texto e imagem no livro de literatura infantil. Revista Letras, América do Norte, 54, set. 2010. Disponível em: 
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs-2.2.4/index.php/letras/article/view/18668/12128
- Acesso em: 19 Out. 2012.
 
NUNES, Brisa Caroline Gonçalves. Painel ilustração do livro infantil: reflexões sobre a importância da imagem no desenvolvimento estético perceptivo da criança. Disponível em:
http://www.faeb.com.br/livro/Paineis/ilustracao%20do%20livro%20infantil.pdf
- Acesso em: 19 Out. 2012.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

Grupo 6 : HQs e ilustração do livro infantojuvenil

Valentina, a princesa da “Beira do Longe”- uma história atual

Sobre o autor

O livro Valentina foi escrito por Márcio Vassallo e publicado em 2007, pela editora global. Vassallo participa sempre de mesas-redondas, em encontros de mercado editorial, literatura e educação. Dentre as suas obras podemos citar algumas infanto-juvenis: A Princesa Tiana e o sapo Gazé (1998), A fada afilhada (2001), A Professora Encantadora (2010), Minha Princesa Africana (2011) e duas de suas obras não-ficcionais: Mario Quintana - coleção Mestres da Literatura (2005), Mães: o que elas têm a dizer sobre educação (2007). Selecionamos para a discussão neste artigo os aspectos mais relevantes da obra e ressaltamos as características que a tornam tão atual e singular.


Porque o conto é atual   
                    
Valentina é um conto atual por conter aspectos inovadores. Ele traz como personagem central uma princesa que rompe com o modelo tradicional – ela é negra, tem orelhas de abano, pernas compridas e usa óculos. Outra inovação é a abordagem da questão social, visto que a história se passa em um morro do Rio de Janeiro, na favela. Essa questão não é percebida pelo leitor através do texto verbal, mas devido às imagens que representam a princesa e o espaço onde vive. Valentina é uma princesa simples que não se identifica com o luxo e a beleza das princesas clássicas. As ilustrações de “traços simples e fortes (...), são feitas a partir de papel reciclado, papel de jornal, recortes, fotografia...”. (ROCHA, 2012). Essa composição pode ser observada até mesmo na capa do livro, pois a coroa da princesa é de jornal.

 
Uma história narrada sob a perspectiva da protagonista: o olhar de Valentina 
 
Valentina não é uma menina com um título de nobreza, ela não tem “sangue azul”. A garota é uma princesa porque a fantasia é criada a partir de seu olhar com relação à sua realidade e porque seus pais a tratam como tal, dentro de suas limitações e possibilidades. Eles a protegem do mundo real. Ela mora em seu “castelo” sem conhecer os problemas sociais, tais como a miséria e a violência. Um exemplo disso aparece na expressão “dragões que cospem fogo”. O autor usa uma metáfora para mostrar que os pais defendem a "princesinha" dos bandidos e da violência existentes em algumas favelas.  Valentina vive longe dos perigos que o mundo pode oferecer. Ela acredita ser uma princesa e não entende o motivo que faz seus pais saírem de casa todos os dias, já que são o “rei” e a “rainha”. Então, curiosa, a menina decide conhecer o tão falado “Tudo” que é a cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, o leitor só compreende a expressão “Tudo” no final da história. Essa tomada de consciência ocorre por meio de uma página ilustrada com uma foto em preto-e-branco da cidade do Rio de Janeiro. Nessa imagem, a favela está pintada com aquarelas de cores que variam do amarelo ao marrom escuro e está situada em um morro, distantante do grande centro capitalista da cidade do Rio de Janeiro. Percebemos aí um contraste entre “Beira do Longe”, lugar distante onde Valentina mora ,e o lugar chamado “Tudo”, que todos veneram como o melhor, o mais agradável.

Ao descer do castelo, junto com seus pais, ela descobre que lá embaixo, o “Tudo”, era bem diferente da sua realidade. Todas as pessoas eram iguais, pois falavam e vestiam-se da mesma maneira, além de ter os mesmos desejos. Essa descoberta ilustra uma sociedade artificialmente homogênea.  A garota conhece pessoas que agem da mesma forma para serem aceitas, para se adequarem às convenções sociais.

O encantamento singular e a crítica social
:

O encantamento da história não está nos feitiços, magias ou metamorfoses, mas na ilusão criada pelos pais para preservar a pequena filha dos riscos de se viver nas condições que lhes restam por não pertencerem à burguesia do Rio de Janeiro, que na maioria das vezes é indiferente a essa questão. Valentina é uma narrativa curta que mostra alguns valores, como a crença no trabalho para prosperar na vida, conforme se depreende da seguinte frase:“(...) o rei e a rainha diziam que só saiam do castelo para a princesa ser alguém na vida”.


Podemos perceber, na frase acima, a forte presença da ideia de que é necessário trabalhar para possuir condições financeiras melhores e, consequentemente, ter uma vida mais tranquila.
 
A atitude dos pais de Valentina ao dizerem que saem de casa para que ela seja “alguém na vida” reflete a visão de que quem mora na favela é "ninguém", enquanto quem mora nos centros urbanos (tratados no conto como "Tudo") é "alguém". Essa maneira de ver o mundo é rompida quando Valentina diz que não quer ser ninguém, porque já é alguém. Na realidade, a visão dos pais considera que só é reconhecido socialmente, com seus valores, direitos e deveres, aqueles que “tem” poderes, uma condição socioeconômica estável e pertencem à burguesia da cidade grande. Já a visão de Valentina é de natureza ingênua, pois notamos, através da narrativa, que Valentina não sabia o que significava realmente a expressão “ser alguém na vida”.
 
A partir dessa narrativa, o autor critica a visão capitalista de que o “belo” e o “encantado” se restringem somente a contextos burgueses. Observamos, através dessa narrativa, que o autor trata a questão da existência da desigualdade social, a divergência entre o mundo capitalista e a realidade das pessoas marginalizadas, mas sem descartar a possibilidade de uma criança que vive na periferia dos grandes centros urbanos - e que não tem conforto, luxo, e nem riquezas - de viver seu próprio conto de fadas.
 
Verificamos que Márcio Vassallo aborda a questão dos valores sociais, das diferenças étnicas e de crenças, entre outros fatores que ajudam na reflexão sobre o respeito para com a diversidade social e cultural do Brasil, já que a história se passa em ambientes pertencentes à realidade de nosso país como a cidade do Rio de Janeiro e a favela. 

A seguir, temos um pequeno vídeo que trata da principal temática do livro, vale a pena conferir!

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Referências
 

ROCHA, S. de O. Crítica de Valentina. Site Marcio Vassallo: 2012. Disponível em:

VASSALLO, M. Valentina. Ilustrações de Suppa. São Paulo: Editora Global, 2007.



GT 5: Contos de Fadas na Atualidade


A infância de Graciliano e os meninos pelados


     Quem já teve a oportunidade de ler algumas das obras consagradas de Graciliano Ramos como: “Vidas Secas”, “São Bernardo” ou ”Memórias do Cárcere”, pode se surpreender ao descobrir que o escritor de temas tão adultos e severos tenha escrito também "A terra dos meninos pelados", entre outros livros, para crianças e jovens.  
 



                             
                                                A terra dos meninos pelados, 1937
 

             A obra “A terra dos meninos pelados”, que ganhou o prêmio de literatura infantil dado pelo governo, ficou bastante conhecida por ter sido adaptada para diversas peças de teatro, musicais e, até mesmo, para uma microssérie infantil exibida pela Rede Globo, em dezembro de 2003. O livro conta a história de Raimundo, um menino que, além de ser careca, tinha um olho preto e o outro azul, o que era motivo de gozação entre as outras crianças. Sem poder falar com ninguém, Raimundo aprende a conversar sozinho e, para fugir de sua realidade solitária, cria um universo imaginário chamado "Tatipurun", onde os animais e plantas falam e todas as crianças são carecas e têm olhos como os dele. 
 
    O tempo passa e Raimundo é confrontado com a realidade da diferença mais uma vez, já que as crianças de "Tatipurun" não são tão iguais a ele quanto pareciam no início. O universo criado por Raimundo denota a necessidade de fuga da realidade por meio da imaginação uma vez que, ao se ver insatisfeito com sua condição e com os julgamentos alheios, Raimundo busca refúgio em seu universo paralelo. Com maestria, Graciliano Ramos confronta a velha tendência humana de preferir o imaginário ao real, induzindo o leitor à questionamentos e reflexões que se aplicam a qualquer faixa etária.  Dessa forma, a leitura de "A Terra dos meninos pelados" torna-se interessante e proveitosa para todas as idades.   





     O livro “Infância” não se caracteriza como literatura infantil, sendo, quando muito, um livro para jovens. Entretanto, por se tratar de uma obra de caráter autobiogáfico, o livro expõe importantes impressões do autor sobre o universo infantil, abordando temas que povoarão as obras de Graciliano pelo resto da vida. Em certo momento, Graciliano chega a se referir às letras como “malditas”, descrevendo o trabalho árduo de uma criança que precisa descobri-las. Por outro lado, o escritor explicita o prazer subversivo de decifrar cada letra como se elas fossem “proibidas”.  Como em muitas de suas obras, em “Infância”, Graciliano tematiza a opressão dos mais fortes sobre os mais fracos, descrevendo-se como uma criança humilhada e oprimida pelos mais fortes, ou seja, pelos adultos. Ao tornar pública parte de suas vivências quando criança, o autor também acaba revelando  parte do processo de aprendizagem e amadurecimento que sofreu. A exposição de detalhes e experiências de foro íntimo torna a leitura da obra mais prazerosa e surpreendente, uma vez que, a partir das revelações do menino Graciliano, é possível depreender o universo que alicerçou sua literatura adulta.
 
     A literatura infantojuvenil de Graciliano surpreende ao tratar dos mesmos temas abordados pela literatura adulta do autor, divergindo apenas na forma mais leve e divertida com que o escritor expõe cada nuance. Graciliano ajuda a desmistificar a literatura infantil ao abranger questões interessantes para adultos e crianças, tornando a leitura de suas obras prazerosa e enriquecedora em qualquer idade.

Referências:
:
RAMOS, Graciliano. Infância. Rio, Editora Record, 1977
:
RAMOS, G. A terra dos meninos pelados. 36ª edição. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007.
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A representação do índio nas ilustrações da literatura infatil indígena


Nas postagens anteriores já havíamos abordado as diferentes representações e significados que as ilustrações podem trazer ao texto. Na postagem de hoje, vamos trabalhar com uma figura – o índio – e suas representações em histórias em quadrinhos e livros infanto juvenis, observando as características de cada uma delas e quais os efeitos de sentido que cada uma delas provoca. Para isso, nos baseamos em trechos do artigo “Imagens da vida indígena: uma análise de ilustrações em livros de literatura infantil contemporânea” de Verônica Simm e Iara Tatiana Bonin (2011).
        Segundo as autoras:

“(...) de um modo geral, nas ilustrações estão presentes alguns estereótipos, que serviriam para construir uma imagem facilmente reconhecível. Em parte, esta representação simplificada e baseada em estereótipos se vincula ao entendimento de que os leitores – crianças e jovens – não disporiam de elementos mais complexos para “ler” uma imagem que não fosse óbvia. Tal entendimento poderia explicar a simplificação de algumas cenas da vida indígena (SIMM; BONIN, 2011, p.3).”

            Desse modo, a representação indígena feita por Maurício de Souza, do personagem Papa-Capim remete a imagem que todos temos de um índio, isto é,

“(...) um indiozinho que facilmente reconhecemos, mesmo que o personagem não esteja inserido nos quadrinhos, ou no contexto da floresta. A cor da pele, o corte de cabelo, a tanga ao estilo norte americano são, por exemplo, os traços que distinguem este personagem (SIMM; BONIN, 2011, p.3).”

 
Na figura acima, ilustrada por Maurício de Souza, o Papa Capim e o outro personagem, apesar de estarem em cima de uma árvore, o que retrata a realidade da vida indígena em contato direto com a natureza, observam a cidade caracterizada pela presença de vários prédios. Isso mostra que, mesmo com a chegada da modernidade, discutida pelos personagens no diálogo, o índio não perde suas características principais: a tanga, o corte de cabelo, seus adornos, a cor da pele, etc, o que compõe o estereótipo de índio presente na sociedade.
Pensando em livros infanto juvenis, as representações indígenas continuam sendo retratadas da mesma forma, por meio de tais traços característicos. Para pensar essa questão, retomamos as capas de três livros ilustrados por Inez Martins – Um Sonho que não Parecia Sonho, Caçadores de Aventura, O Sumiço da Noite, todos de autoria de Daniel Munduruku, destacadas abaixo:

 


 
       
Nos dois primeiros livros, os índios continuam a ser representados de forma tradicional: na figura 1, deitado em uma rede e na figura 2, com instrumentos de caça e pesca (o arco e flecha), além de manterem os traços característicos: a pintura, os adornos, entre outros. Na terceira figura, esses traços se mantém,

 “ (...) no entanto ele [o índio] é representado com dois símbolos de poder, que estabelecem certo lugar hierárquico em relação aos outros personagens: o cocar e um instrumento ritualístico (um recipiente no qual se guarda os segredos da noite) (SIMM; BONIN, 2011, p.3)”

         Com essa ilustração percebemos que esse índio não é “tradicional”, ou seja, não é retratado com base no senso comum, mas por meio de particularidades de uma tribo, pensando nas suas especificidades.
         Para finalizar, destacamos que além da ilustração contribuir para a construção de sentidos no texto, também auxilia na construção de identidades, e nesse caso de um estereótipo – o índio. O que poderia ser feito em todas as obras que ilustram o índio é considerar as diferentes tribos e a importância de cada uma, valorizando a diversidade na cultura indígena em suas representações imagéticas e sendo fiel as suas particularidades.



Referências:

SIMM, V.; BONIN, I. T. imagens da vida indígena: uma análise de ilustrações em livros de literatura infantil contemporânea. Revista Historiador. Nº 4. Ano 4. Dez, 2011.

 
GT6 - HQs e ilustração do livro infantojuvenil